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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

03
Set20

A mulher seminua

Luisa Brito

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Tinha-se dominado. Levantou a cabeça, olhou o tecto pintado da sala, cujas pinturas o tinham distraído tantas vezes durante as discussões intermináveis das Juntas Directivas; olhou, principalmente, aquela mulher seminua que lhe sorrira uma vez por semana durante vinte anos, a única que, de verdade de verdade, lhe tinha sorrido. Olhou o espelho do fundo, onde a mulher se refectia e de onde lhe fazia também o mesmo trejeito, que ele se comprazia a olhar depois do outro para ter a ilusão de que eram duas irmãs gémeas que o amavam.  

Gonzalo  Torrente Ballester in A Bela Adormecida Vai à Escola

25
Ago20

O futuro perfeito

Luisa Brito

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À minha neta Anica

A neta explora-me os dentes,
Penteia-me como quem carda.
Terra da sua experiência,
Meu rosto diverte-a, parda
Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos,
Fura-me os olhos cansados,
Intima aos meus próprios medos
Deixa-mos sossegados.

E tira, tira puxando
Coisas de mim, divertida.
Assim me vai transformando
Em tempo da sua vida.

Vitorino Nemésio

 

08
Ago20

Carpe Diem

Luisa Brito

 

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Colhe o dia, porque és ele

 

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa) 

16
Jul20

Somos o que comemos, mas parece que também somos o que ouvimos e lemos…

Luisa Brito

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Têm-me chegado dúvidas acerca do envolvimento dos alimentos na Covid-19. Assistimos, não há muito, à apologia das injecções com desinfetantes…. Após ressurgimento de novos casos de Covid-19, encerra-se um grande mercado de alimentos em Pequim, bem como fábricas de carne no Reino Unido e outros casos surgirão infelizmente. Apontam-se os alimentos como a causa para o efeito. Mas omitem-se as condições inerentes a estes locais: grande concentração de pessoas, que em muitos casos também vivem e se deslocam em espaços com grande concentração de pessoas; necessidade de falar muito alto, portanto com maior emissão de partículas; nalguns casos humidade elevada que aliada ao frio protege o vírus, nalguns casos também falhas no controlo das boas práticas de higiene (GHP)…

 (Quase) nada do que comemos, bebemos, respiramos ou de qualquer modo experienciamos está isento de risco. Cada sector, baseado no conhecimento cientifico disponível ao momento, implementa medidas que visam baixar o risco, que é o mesmo que dizer minimizar a probabilidade de ocorrência do perigo.

Posto isto, devemos questionar a fidedignidade das fontes de informação. Existe muita informação a circular e muito rapidamente, mas nem toda é confiável. Não são os influencers ou os políticos que detêm o conhecimento científico. Esse papel cabe aos cientistas que, como já dito, em face do conhecimento disponível à data, se pronunciam.

O SARS-CoV-2 não é um vírus alimentar. Tem uma estrutura diferente e um modo diferente de interagir com o hospedeiro. A doença Covid-19 não se transmite através de contaminação fecal-oral, como no caso de muitos agentes patogénicos alimentares, vírus alimentares incluídos.

A Indústria Alimentar, desde a quinta ao prato, tem implementadas ferramentas que visam a protecção do consumidor. Essas ferramentas assentam nas GHP e nas GMP (boas práticas de fabrico). Como os técnicos alimentares, só os técnicos de saúde têm tão bem implementadas as boas práticas de higiene. Mas já as nossas mães e avós nos ensinaram: lavar e secar as mãos, sempre antes e depois de manipular alimentos; lavar fruta e vegetais em abundante água corrente, especialmente para consumir em fresco; cozinhar bem os alimentos. Estas, entre outras medidas, funcionam também para controlar o SARS-CoV-2 nos alimentos. Estas são as recomendações dos técnicos alimentares. Já os técnicos de saúde reforçam a necessidade de; distanciamento social; uso de máscara; lavagem, ou desinfecção, frequente das mãos; evitamento de locais com grande concentração de pessoas e/ou pouco arejados.

E é isto! Continuar a comer e continuar a viver. Sem nunca, nunca, baixar a guarda a este inimigo.

Aos influencers não abalizados, cabe estarem caladinhos sobre aquilo que não sabem, para não provocarem mais estrago. Já aos políticos, cabe criarem condições para que TODOS possam seguir estas recomendações. Supostamente, o juramento que fizeram também incluía esta palavra: TODOS.

Fiquem bem, protejam-se e protejam os outros!

26
Jun20

Ensino remoto de emergência e avaliação remota de calamidade no ensino superior

Luisa Brito

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Não sei dizer se todos, mas, estou convencida de que, com menor ou maior dificuldade, a maioria dos alunos e dos professores se adaptou rapidamente a este ensino remoto de emergência. As aulas foram dadas num registo diferente, mas que não poderia ter sido outro, em pleno estado de emergência.

No entanto, ensino remoto de emergência é uma coisa e avaliação remota em estado de calamidade é outra. Nestas avaliações remotas, professores e alunos estiveram demasiado ocupados com a logística das avaliações, em vez de se concentrarem na efectiva avaliação dos conteúdos. Não correu bem. Os professores, por vezes, poderão ter exagerado nas regras impostas, com vista à minimização da fraude. Já para os alunos, não cometer fraude foi, virtualmente, impossível. Mesmo aqueles que não precisam de fazer batota para obter boas classificações não conseguiram ter o sossego, indispensável à realização de uma prova, tais as múltiplas solicitações de ajuda por parte de colegas, a que dificilmente se poderiam escusar, particularmente no 1º ciclo, sob risco do julgamento de grupo. E, quase todos, sabendo que não havia forma efectiva de poderem ser controlados, fizeram o que puderam. Mesmo as perguntas com consulta consentida, cujas respostas não podem ser encontradas diretamente e, à partida, exigem maior raciocínio, neste tipo de avaliação remota podem sempre ser falseadas pela consulta, no grupo, através das mil redes sociais ao alcance de um toque.

No 1º ciclo, em pleno exame oral, uma aluna inquirida em relação a um determinado tema perguntava aos professores, com a maior das canduras, se podia consultar os seus apontamentos, enquanto outro aluno, com igual candura, descrevia aos professores como ao responder à prova escrita, tinha lido as questões e, no caso de dúvida, tinha consultado os seus apontamentos… E isto foi dito com tanta naturalidade que parece estar já interiorizada a ideia de que esta avaliação remota é um tipo de avaliação naturalmente com consulta, de tudo...

O Sr. Ministro do Ensino Superior afirma ter sido educado numa geração onde se dizia que “é proibido proibir”. E deixou, por isso, às escolas a liberdade de agirem como entendessem nesta situação de pandemia. Já alguns responsáveis pelas escolas, aparentemente, parecem não partilhar da mesma filosofia de vida do ministro… até porque alegam não disporem dos meios financeiros necessários para pôr em prática, com segurança, a certeza do Sr. Ministro de que “pessoas e competências exigem a presença e a interação física".

Estamos quase em Julho. E a partir de Setembro/Outubro como vai ser? Dificultada que está a comunicação, os professores apenas trocam opiniões e preocupações sobre esta situação em círculos restritos. A sensação é mesmo de que se trata de um assunto incómodo…. Cómodo ou incómodo é a realidade que parece que está para durar. Donde, urge escutar os intervenientes, fazer o balanço das experiências já vividas e planear, para melhor controlar, as experiências futuras. Isto é, se queremos continuar comprometidos com um ensino superior de qualidade que assegure que os alunos terminem os seus percursos académicos munidos das competências necessárias para virem a ser bons profissionais.

03
Jun20

Um modo de estar

Luisa Brito

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Um dia destes cá em casa, para simplificar, comprámos um franguinho assado. Mas depois, por motivos vários, acabei por ser só eu a encetar o frango e as filhas comeram outra coisa. Dei-me conta que, sem pensar, estava a escolher para mim as partes que elas menos gostam…. Lembrou-me a minha Mãe que ficava sempre com a pior parte fosse do que fosse. E ainda brincava “Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte”. Nada tinha de tola ou de falta de arte, mas tinha tudo de Ser Mãe. E isto nada tem que ver com a idade ou a condição dos filhos. É assim, porque sim. Ser Mãe é um modo de estar, senão mesmo um modo de ser. Ter Mãe é um privilégio. Outro privilégio é Ser Mãe, de sangue e/ou de coração.

06
Mai20

A fila...

Luisa Brito

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Trabalho mais nesta pandemia do que trabalhava antes. Não sou a única. Uns porque as chefias receiam que as pessoas preguicem em casa e sobrecarregam-nas de tarefas, outros porque este regime de trabalho remoto de emergência torna mais demorado agilizar determinados procedimentos. E é preciso cozinhar, lavar, limpar, passar, cuidar dos nossos, em suma, organizar a vida que não se esgota no trabalho. Alguns de nós, por outro lado, lamentam-se da falta de ocupação, discutem as melhores opções de receitas culinárias ou mesmo de take-away, enquanto se vai brincando com o tamanho da roupa que teima em mingar...

Interrompo o trabalho para lanchar. Ligo a TV e o que eu vejo é uma fila de pessoas à espera de uma doação de géneros alimentícios. A maior parte destas pessoas, mesmo com máscara, tapa a cabeça, não quer ser filmada. As pessoas têm vergonha de pedir. Devíamos nós ter vergonha que  tivessem de pedir... Há gente a passar fome. Mesmo ao pé de nós. A pandemia é democrata, não distingue entre ricos e pobres, mas as consequências da pandemia distinguem muito bem uns dos outros.  Eu agradeço pelo trabalho que tenho e, de cada vez que me ocorrer lamentar-me, pensarei nisto... envergonhada…

 

02
Mai20

O parafuso

Luisa Brito

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Tenho no quarto um espelho de toucador. Além de fazer o que os espelhos fazem, que é refletir, também tem espaço de arrumação, de toucador.... Há algum tempo, a estrutura superior perdeu um dos parafusos, soltou-se de um dos lados e ficou bamba. Fiquei triste porque gosto muito do espelho. Procurei o parafuso por todo o lado, procurei resolver com outros parafusos, mas ou eram grandes demais ou pequenos demais. Tentei encontrar uma solução para fixar a parte superior, mas nada. Podia ter removido aquela estrutura, que o espelho continuaria útil como antes. Mas eu gosto dele exatamente porque tem aquele enfeite. Podia também ter comprado outro, mas não. Resolvi encaixá-lo na decoração da melhor forma possível e passou a haver mais cuidado quando se lhe faz a limpeza. Em suma, aceitei que tinha aquele problema.

Isto já foi há muitos meses. Eu acho que há mais de 1 ano. Hoje, sem procurar, aparece-me um parafuso vindo do nada e, sei lá porquê, tive um feeling que era o parafuso que (me) faltava.

Vai-se a ver, era mesmo. Encaixou no seu buraquinho e depois enroscou-se muito apertadinho no seu pinchavelho como só ele podia.

E pensei que o Universo está sempre a enviar-nos lições. Foi só aceitar, ter paciência, que o tempo se encarregou de colocar o parafuso que faltava no seu devido lugar…

17
Abr20

Conta-me outra vez

Luisa Brito

 

Conta-me outra vez

 

Conta-me outra vez, é tão bonito
que eu nunca me canso de ouvi-lo.
Repete-me outra vez que o casal
da história foi feliz até à morte,
que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuavam a beijar-se a cada noite.
Conta-me mil vezes, por favor:
é a história mais linda que conheço.

 

de Amalia Bautista (tradução - LB)

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