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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

31
Jan19

Subindo a cachoeira...

Luisa Brito

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Sem pensar muito, caminhei em direcção à cachoeira.

O impacto da água na minha cabeça devolveu-me o absurdo «sentido da realidade», que enfraquece o homem na hora em que é mais necessária a sua fé e a sua força. Percebi que a cachoeira era muito mais forte do que eu tinha pensado, e que se caísse em cheio em cima do meu peito, era capaz de me derrubar mesmo estando com os dois pés apoiados na segurança do lago. Atravessei a corrente e fiquei entre a pedra e a água, num pequeno espaço onde cabia exclusivamente o meu corpo, colado à rocha. E aí vi que a tarefa era mais fácil do que eu pensara.

A água não batia naquele lugar, e o que me parecera um paredão polido por fora, era na verdade uma pedra cheia de reentrâncias. Fiquei tonto só de pensar que poderia ter renunciado à minha espada com medo de uma pedra lisa, quando na verdade era o tipo de rocha que já escalara dezenas de vezes. Parecia estar a ouvir a voz de Petrus a dizer: «estás a ver? Um problema depois de resolvido fica de uma simplicidade aterradora.»

 

Paulo Coelho in O Diário de um Mago

26
Jan19

Muito...

Luisa Brito

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É tão bom sentir o que sinto. Que alguém, e és tu, me quer com o maior cuidado para não se enganar, iludir, mentir a si próprio que não me está a confundir, sem querer, com o que desejava ver, sempre esperou alcançar, sonhou quando era criança num sonho que ficou, quer mostrar aos outros, ao pai em especial, a quem quer que seja, pouco importa. Não, do que tu gostas mais em mim é dos meus pecados, dos meus defeitos físicos, de tudo o que não consigo ser, onde falhei, onde não pára nunca de doer, é isso o que tu queres ver, o que queres ter perto de ti, queres aceitar e cuidar, só isso, e o resto, só se vier com isso, porque é isso que tu amas em mim. Será isso? Será assim? Será possível pela primeira vez? Pode ser, talvez seja disso feito o nosso amor. Pelo menos grande parte, meu querido.

 

Pedro Paixão in Muito, Meu Amor

16
Jan19

A casa

Luisa Brito

Sintra Março 2016.jpg

 

A casa

 

Confesso:
Quando a olhei
eu apenas queria, 
em sua boca,
a água onde começa a vida.

E fui num murmúrio:
preciso do teu fogo
para não morrer.
Ela, então,
sussurrou o convite:
vem a minha casa.

No caminho,
porém,
recusou meu braço,
esfriou o meu alento.
E corrigiu-me assim o intento:
não te quero corpo,
nem quero o fogo do leito,
nem o frio do adeus.

Suave murmurou:
levo-te,
homem,
a minha casa
para aprenderes a ser mulher.
Que nenhum outro fim
a casa tem.

 

Mia Couto in Vagas e Lumes

14
Jan19

Antes de nós...

Luisa Brito

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Antes de nós nos mesmos arvoredos

 

Antes de nós nos mesmos arvoredos

Passou o vento, quando havia vento,

E as folhas não falavam

De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.

Não fazemos mais ruído no que existe

Do que as folhas das árvores

Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo

Entregar nosso esforço à Natureza

E não querer mais vida

Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.

Salvo nós nada pelo mundo fora

Nos saúda a grandeza

Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício

Na areia o mar com ondas três o apaga,

Que fará na alta praia

Em que o mar é o Tempo?

 

Ricardo Reis, Odes

12
Jan19

A viagem

Luisa Brito

IMG_20190112_002749.jpg

 

Uma das minhas passagens preferidas que reflete a agonia e o êxtase da nossa viagem é extraída de The Velveteen Rabbit de Margery Williams. No enredo, dois brinquedos de crianças, o Cavalo Sem Pêlo e o Coelho, falam sobre o Real que se aproximava:

“Dói?”, perguntou o Coelho.

“Às vezes” respondeu o Cavalo Sem Pêlo, pois dizia sempre a verdade. “Mas se fores Real não te importas que te magoem.”

“Acontece tudo de uma vez, como quando te dão corda”, perguntou ele, “ou a pouco e pouco?”

“Não acontece tudo de uma vez”, respondeu o Cavalo Sem Pêlo. “Vais-te tornando assim. Leva muito tempo. É por isso que não acontece às pessoas que se partem fácilmente, ou que têm arestas cortantes, ou que têm que ser guardadas com cuidado. Geralmente, quando te tornas Real, a maior parte do teu pêlo foi arrancada e os teus olhos caíram e as tuas articulações estão frouxas e muito gastas. Mas nada disto tem importância porque quando és Real não podes ser feio, excepto para as pessoas que não compreendem.”

 

Susan Jeffers in Apesar do Medo

08
Jan19

Amália

Luisa Brito

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   Vhils, Alfama

 

Barco Negro

 

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

David Mourão-Ferreira

06
Jan19

Viajo no teu corpo

Luisa Brito

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Viajo no teu corpo

 

Viajo no teu corpo. Só teu corpo?

Mas quão breve seria essa viagem

Se no limite dela a alma nua

Não me desse do corpo a certa imagem.

 

José Saramago in Provavelmente Alegria

05
Jan19

Saber?

Luisa Brito

Imagem6.png

 

“O Absoluto” é um diálogo apaixonante entre o cientista Albert Jacquard, um dos maiores especialistas em Genética de Populações e “o meu” Abbé Pierre fundador do movimento Emaús. Este diálogo foi moderado por Hélène Amblard, jornalista e escritora, que aliás escreveu vários livros com Albert Jacquard. É, precisamente, de Hélène Amblard o parágrafo seguinte que interpela, mais particularmente, alguns de nós…

 

“Tentemos compreender certas atitudes generalizadas. Os cientistas formam um mundo de pessoas que têm medo de se enganar. Fizeram estudos prolongados, ao longo dos quais foram aprendendo a eliminar as suas ideias pessoais. O que conta acima de tudo, quando se quer obter diplomas e um estatuto, é saber-se dizer o que possa ser ouvido pelos outros, muito mais do que aquilo que realmente se pensa a partir do que se aprendeu. Os cientistas viveram-no quando ainda eram jovens e generosos. Uma vez instalados no seu lugar, sabem que a carreira só lhes será facultada sob condição de serem capazes de agradar. Aprendem a deixar de ouvir a voz interior que os faz continuar em movimento. Transformaram-se em seres extremamente prudentes, o que é, sem dúvida, necessário, já que o trabalho que fazem requer alguma prudência; mas, ao mesmo tempo, evitam assumir qualquer compromisso filosófico, qualquer declaração que a isso possa equivaler, qualquer terreno que lhes pareça menos firme. Com o mundo cada vez mais cheio de pontos de interrogação, eles pensam, isolados da sociedade, que só a eles compete responder. Temos, pois um mundo fechado em si mesmo, melindroso, presa de escolas e de querelas apaixonadas durante as quais irrompem violentas invectivas. Nenhum cientista, que eu conheça, escapa por completo a esta caricatura. O mundo do saber não constitui excepção. Reconhecem-se bem todos os que se julgam detentores de um poder. “  

 

 

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