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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

31
Mar19

Les uns et les autres…

Luisa Brito

 

colar e espelho.JPG

 

 

[…] A acção, para certos homens, é tanto mais impraticável quanto o desejo é mais forte. A falta de confiança em si próprios embaraça-os, o temor de desagradarem apavora-os; aliás, as afeições profundas parecem-se com as mulheres honestas; têm medo de ser descobertas, e passam a vida de cabeça baixa. […]

 

[…] Contudo, tinha descoberto no gabinete de toilette a miniatura de um cavalheiro de bigodes compridos: era o mesmo acerca do qual ela lhe contara outrora uma vaga história de suicídio? Mas não existia nenhum meio de saber mais. Aliás, que interessava isso? Os corações das mulheres são como os pequenos cofres de segredo, cheios de gavetas metidas umas nas outras; tem-se trabalho, partem-se as unhas e encontra-se no fundo uma qualquer flor ressequida, grãozinhos de pó ou o vazio! E, depois, até talvez receasse ficar a saber demasiado. […]

 

Gustave Flaubert in A Educação Sentimental

21
Mar19

A gôndola

Luisa Brito

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O romance começava bem.

“Paul beijou-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos. “

Leu a passagem várias vezes em voz alta.

Que raios seriam as gôndolas?

Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e, quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava “ardorosamente” a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.

Gostou do começo.

Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.

E quanto a beijar, como é que ele dizia? “Ardorosamente”, como diabo seria isso?

Recordou-se de beijar muito poucas vezes Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo. Na melhor das hipóteses, terá havido uma dessas poucas ocasiões em que o fez assim, ardorosamente, como o Paul do romance, mas sem o saber. Em todo o caso, foram muito poucos beijos, porque a mulher, ou respondia com ataques de riso, ou fazia notar que podia ser pecado.

 

Luis Sepúlveda in O Velho Que Lia Romances De Amor

17
Mar19

A filhó

Luisa Brito

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Apesar do tempo decorrido, ela conseguia lembrar-se perfeitamente dos sons, das cores, do roçagar do seu vestido novo sobre o chão recém-encerado; o olhar de Pedro sobre os seus ombros… Aquele olhar! Ela caminhava para a mesa levando uma bandeja com doces de gemas de ovo quando o sentiu, ardente, a queimar-lhe a pele. Virou a cabeça e os seus olhos encontraram-se com os de Pedro. Nesse momento compreendeu perfeitamente o que deve sentir a massa de uma filhó ao entrar em contacto com o óleo a ferver. Era tão real a sensação de calor que invadia todo o seu corpo que perante o medo de que, como uma filhó, lhe começassem a brotar borbulhas por todo o corpo – na cara, no ventre, no coração, nos seios – Tita não conseguiu sustentar esse olhar e baixando os olhos atravessou rapidamente o salão até ao extremo oposto, onde Gertrudis movia nos pedais da pianola a valsa Ojos de juventud.

 

Laura Esquivel in Como Água Para Chocolate

05
Mar19

O medo

Luisa Brito

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Ficaram mil anos assim abraçados, até que lentamente se afastaram as alucinações e ele regressou ao quarto, para se descobrir vivo apesar de tudo, respirando, palpitando com o peso dela a descansar no seu peito, os braços e as pernas dela sobre os seus, dois órfãos apavorados. E, nesse instante, como se soubesse tudo, ela disse-lhe que o medo é mais forte que o desejo, o amor, o ódio, a culpa, a raiva, mais forte que a lealdade. O medo é qualquer coisa total, concluiu, com as lágrimas a escorrer pelos seios. Tudo parou para o homem, tocado na ferida mais oculta. Pressentiu que ela não era apenas uma rapariga disposta a fazer amor por comiseração, que ela conhecia aquilo que se encontrava escondido mais para lá do silêncio, da completa solidão, mais para lá da caixa selada onde ele se tinha escondido do coronel e da sua própria traição, mais para lá da recordação de Ana Díaz e dos outros companheiros denunciados, a quem foram traindo um a um de olhos vendados. Como pode saber ela tudo isto?

 

Isabel Allende in Contos de Eva Luna

02
Mar19

…um deus que nos protege…

Luisa Brito

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Que extraordinário, querida. Ter tido o mundo na mão e ter agora uma bola furada. Ter tido o passo firme e andar agora em equilíbrio difícil. Porque ando, minha Sandra, sem metáfora nenhuma. O passo vacilante, os dedos dos pés fincados ao chão para não cair. Mas no descalabro geral, e era isto que te queria dizer, nas ruínas do que fui e pensei e me coordenava com o mundo, poderei dizer-to? no desastre da vida finda, há momentos de graça em que te não vejo apenas mas me sinto devastado de te querer. O amor é dos jovens, mas não o creias muito. E dos velhos – tomber en enfance – mas não é isso. Recuperar o encantamento com a morte de permeio, recuperar a tua voz, o teu olhar triste. Porque não é quando eu quero que tu apareces, és tu que decides, suponho. Ou um deus que nos protege com um sorriso. E então vens e chamas-me do corredor. E eu já não te respondo para te não afugentar. E assim, mesmo pela noite, tu deitas-te a meu lado, no teu lugar, como é bom até adormecer.

 

Vergílio Ferreira in Cartas a Sandra

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