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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

30
Abr19

da (falta de) liberdade...

Luisa Brito

rocha flor.JPG

 

 

O olho vigilante

 

Era preciso amar de pé

amar depressa

amar contra a parede

contra o medo

atrás da porta

sobre a pedra

no mais pequeno espaço conquistado

ao olho vigilante.

 

Onde menos se esperava ele

espreitava.

Atrás do espelho

sob a cama

nas mangas nas golas nos biombos

na agulha na tesoura no dedal

no livro único

na tia nas torradas

na novena

ele espreitava.

 

O olho vigilante.

À coca.

Era o Estado era a mãe era

a virtude

era o pecado e o remorso e a

castidade.

Mas apesar de tudo era tão bom

de noite em pé à pressa no Penedo

da Saudade.

 

Manuel Alegre in Todos os Poemas São de Amor

25
Abr19

alvas pombas, rubros cravos

Luisa Brito

cravos.JPG

 

 

Alvas pombas, rubros cravos

 

25 de Abril

e uma menina assistia

e via,

soldados na rua,

espingardas ao alto,

mas cravos, muitos cravos,

e vermelhos, cor da paixão.

E a menina assistia,

mas não tinha medo

porque pressentia,

no vermelho das flores,

a libertação.

 

25 de Abril

e outra menina escuta

e aprende.

Imagens antigas,

alvas pombas, rubros cravos

e multidões e canhões.

E a menina escuta, 

mas não tem medo

porque pressente,

no rosto de quem conta,

a emoção.

E depois do adeus,

Abril amanheceu 

e Portugal cresceu.

 

Nota: esta poesia assenta numa história (privada) entre mãe e filha…

24
Abr19

Os livros

Luisa Brito

 

 

livros 3.jpg

 

 

Os livros

É então isto um livro,

este, como dizer?, murmúrio,

este rosto virado para dentro de

alguma coisa escura que ainda não existe

que, se uma mão subitamente

inocente a toca,

se abre desamparadamente

como uma boca

falando com a nossa voz?

É isto um livro,

esta espécie de coração (o nosso coração)

dizendo "eu"entre nós e nós?

 

Manuel António Pina in Como se Desenha uma Casa

18
Abr19

Kismet

Luisa Brito

kismet.jpg

Nota: Kismet significa destino em Turco

 

 

A amante recordou-se de quando se sentara naquela mesma disposição entre aqueles mesmos dois homens em Compiègne, antes de eles partirem para o Suez, cada um ao encontro do seu Oriente. Pediu outro copo de vinho.

- Amor é o nome que se dá à tristeza para consolar aqueles que sofrem. Lembra-se? – perguntou ela a Cassim Bey. – E nós sofremos porque desejamos aquilo que não temos ou porque possuímos aquilo que já não desejamos.

- Lembro. Mas o sofrimento não é doença que tenha, espero, Madame?

- Não. Eu estou reconciliada com o eterno isolamento em que o meu coração permanece encerrado. Deve ser o meu destino, Casimir.

Nesse momento, La Poupée ergueu o véu.  Os olhos das suas mulheres encontraram-se. A amante susteve a respiração. A esposa tinha um olho azul e o outro amarelo. Era o rosto da miniatura que Casimir havia comprado naquela loja de coisas orientais numa tarde de Outono no Palais Royal. O rosto que o havia inspirado a amá-la nessa noite de uma forma que ela nunca esquecera. O rosto que o atraíra a outro continente. O rosto que o levara a apagar a sua identidade. O rosto de uma boneca.

- O que acontece se possuímos aquilo que em tempos desejámos? - perguntou ela ao seu antigo amante.

- Aproximamo-nos mais do nosso destino. Tornamo-nos humanos.

- E se não conseguirmos?

- Então apenas pertencemos ao reino dos sentidos.

- O que é melhor?

- Isso depende do destino de cada um.

- Está então a sugerir que destino e amor são uma e a mesma coisa?

Nesse instante, La Poupée falou pela primeira vez:

- Não a mesma coisa, mas um atrai sempre o outro, Madame. E nunca é aquilo que esperamos. Mas a busca mantém-nos vigorosos. De outro modo, pereceríamos.

 

Alev Lytle Croutier in O Palácio das Lágrimas

 

10
Abr19

Tia Clementina

Luisa Brito

janela.jpg

 

 

Ali começou, para Clementina, a sua época de esplendor. Passava as manhãs de roupão, esquadrinhando as diferentes divisões e fazendo o inventário daquilo que continham. Depois ia até ao jardim interior para contemplar e cuidar das plantas e flores; subia ao terraço (que surpresa, a primeira vez que subiu), onde havia um pequeno cercado com galinhas e pintos, aos quais dava de comer para se distrair. Por volta do meio-dia já estava vestida e arranjada, a empregada tinha arrumado a casa e a cozinheira feito as compras e preparado o almoço. Entretanto, atendera duas ou três chamadas de Sergio, do escritório, só para lhe perguntar como ela estava, antes de o ver chegar para almoçar, sempre às duas da tarde. A seguir ao almoço, a sesta no quarto amplíssimo e fresco, um passeio pelo centro de Miraflores, comprando qualquer coisa por capricho, a preparação de um docinho para Sergio, que era guloso, a chegada dele ao fim da tarde e as conversas em que recontavam as suas vidas pela enésima vez, de mãos dadas, na grande divisão envidraçada ao fundo da casa. Depois saíam para jantar fora, iam ao cinema, ou a um concerto, até ficarem, já noite alta, anichados na espaçosa cama, nus, flácidos, cansados, sem muito apetite para o prazer, embora felizes.

 

Julio Ramón Ribeyro in A palavra do Mudo

07
Abr19

O Funâmbulo

Luisa Brito

Rope.jpg

                                                               The Tightrope Walker by Paul Klee (DailyArt)

 

– A vida é imprevisível – disse depois. – Está cheia de acidentes que há que saber enfrentar. – Fez algumas flexões e comentou: – O arame da vida é o que nos permite desenvolver a acção certa. Esta vai reorganizando a mente, do mesmo modo que uma mente harmoniosa desencadeia acções lúcidas. Há mestres que insistem em cultivar a mente para chegar à conduta correcta e outros insistem na mesma para cultivar a mente clara através desta. De facto, não há diferença.

Prendeu à volta dos rins uma correia muito larga. Embora não deixasse de me falar, agia a todo o momento com grande cuidado e precisão. Os seus movimentos eram lentos mas não pesados. Notava-se que era sempre muito consciente.

A vida é um arame, sim – afirmou peremptório. – Se estás apreensivo, cais; se te mostras demasiado desprevenido e ousado, também. Se distrais a tua atenção, está tudo perdido. Se o medo se apodera de ti e te paralisa, a vida perde o seu brilho e o espírito murcha. Do mesmo modo que um bom funâmbulo caminha sobre o arame com grande atenção e procura a cada momento conservar o equilíbrio, também há que passar assim pela vida.

 

Ramiro A. Calle in O Faquir

 

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