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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

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A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

28
Jan21

Fugir para o Outro...

Luisa Brito

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Os dias estão tristes, como se o tempo tivesse sido contagiado pela tristeza das pessoas. À nossa volta um silêncio pesado que contrasta com a parafernália que as televisões nos mostram dos hospitais. Em casa de cada um de nós a vida continua. Os que estão sentados no sofá, no conforto do lar, as tecnologias à mão de semear. Os que são obrigados a adaptar-se, com filhos pequenos e em teletrabalho. Os que vivem consumidos para cuidar dos seus idosos. Os que se disponibilizam para levar conforto aos outros, presencial ou à distância. Os que são contra o confinamento porque, se não se morre de Covid19, morre-se de fome. Os que estando positivos, não se isolam e, infectam outros, por estupidez ou por necessidade de sobrevivência. Os que são governantes já em “burnout” de 80 000 anos… Os que, ainda assim, em tempo de guerra não decretam tréguas à maledicência. Os que relatam espaços ajardinados de hospitais, agora transformados em depósitos de cadáveres refrigerados. Os que tendo os seus infectados contam ansiosamente os 14 dias desejando que passem depressa, sem complicações de maior. Os que se vêem obrigados a viver confinados com agressores, físicos e/ou psicológicos. Os que se vêem privados de abraçar e de beijar os seus Amores, por agora, ou para sempre. Os que se vêem privados do seu modo de sustento. E aqueles que embora tenham vontade de fugir, não têm para onde, porque não há para onde fugir. Ou melhor, sempre há! Fugir para dentro de nós. Fugir para o Outro….

 

28 de Janeiro de 2021

19
Jan21

O jovem do semáforo

Luisa Brito

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A pandemia agravou tudo. Muitas das actividades que dependem diretamente do contacto entre as pessoas têm estado mais ou menos suspensas. A cultura é uma dessas áreas. Logo a cultura que é o alimento da alma… Quem já sobrevivia mal, sobrevive pior.

Costumo passar num semáforo que é um ponto de pedintes. Antes da pandemia, costumava estar por lá um homem que exibia as suas malformações de um jeito queixoso. Antes, já por lá tinham passado imigrantes Romenos. Não os vi mais. Desde que começou a pandemia, quem vejo por vezes é um jovem que, em vez de exibir malformações, exibe os seus dotes de malabarista (até com os carros, quando o sinal abre…) de um jeito solto e leve. Ao contrário de outros que nunca dão porque “é para comprar droga” ou porque “o Estado é que tem obrigação de cuidar destes casos”, eu pertenço àqueles que dão sempre “se pede, é porque pode menos do que eu”. A arrumadores, seja a quem for. Também já me tem acontecido ficarem a olhar com desdém para a minha contribuição e eu, nesse caso, ”olhe que é o que posso dar. Se não quer, dê cá que a mim dá-me muito jeito”. E não. Não dou nada que seja ofensivo para ninguém. Nesse caso, acho melhor não dar. E procuro acompanhar a minha contribuição com umas palavras, com um olhar de ânimo, porque acho que nem só de pão vive o Homem...

E com o jovem malabarista, igual. Deixei de o ver por uns tempos. Mas um dia destes, lá estava ele a fazer os seus malabarismos. O verde estava a cair e eu procurei na minha mala (de mulher…) qualquer ajuda. Com a precipitação e a minha falta de vista, acabei dando menos do que gostaria ou poderia. Mas ele faz sempre um sorriso tão bonito, com o seu olhar tão limpo, no seu rosto tão escurecido… E, entretanto, atrás de mim já se apitava e eu já ía a arrancar, mas não pude, porque da janela do carro da frente, que não andava, sai uma mão a agitar uma nota. O rapaz já distraído a desviar-se dos carros e eu a buzinar-lhe para lhe chamar a atenção para o sujeito da nota. Lá foi ele a correr. Ficou felicíssimo! E eu que fiquei com pena da minha contribuição não ter sido maior (caramba! Podia ter-me borrifado para a fila atrás de mim!), fiquei com o coração quentinho de ver a felicidade estampada no rosto e nas mãos do jovem malabarista agradecido. E fiquei a pensar como o exemplo, qualquer que ele seja, é contagiante. Se alguém nos indica o caminho certo, o caminho da solidariedade, alguns de nós seguem a pista. O Estado também somos todos nós. E se não mudámos a vida do jovem, mudámos pelo menos o seu ânimo naquela hora. E o retorno que tivemos foi mil vezes maior.

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