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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

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A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

12
Jul24

A indiferença

Luisa Brito

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Imagem da internet

 

Há poucos dias, estava eu numa loja de uma grande superfície comercial, quando entra uma garotinha, para aí de sete ou oito anos, a chamar pela mãe. A mãe não estava na loja e a garota saiu, como entrou, correndo. Após uma brevíssima troca de olhares com uma funcionária, que me encolheu os ombros, saí eu também disparada atrás da menina. “procuras a mãe, minha querida?” E o rostinho já transtornado, ilumina-se naquela hora “está ali o meu pai!” e saiu correndo ao encontro. Depois de me certificar que estava bem, regressei à loja e fiz o resumo à dita funcionária. “sabe o que é que os pais nos dizem se, numa situação destas, chamamos o segurança? ”não tem nada com isso. meta-se na sua vida!” Não sei, e pouco me importa, o que diriam os pais. Sei sim que o dever de cada um de nós, nestas circunstâncias, é prestar apoio imediato à criança. Prestar auxílio a quem é(está) mais frágil.

E vieram-me à ideia outras situações de indiferença, até mesmo laborais quando, não sendo nada connosco, encolhemos os ombros como aquela funcionária, e fazemos que não vemos ou que não sabemos, não vá acontecer que a nossa atitude nos possa de algum modo prejudicar…

Por vezes, esta indiferença pode mesmo resvalar para a segregação. Não quero ter nada a ver com o outro que é diferente de mim, na cor, no credo, na orientação sexual, no status.

E, no final do dia, quando pousamos a cabeça no travesseiro?...  

Há um texto de um alemão Martin Niemöller (1892-1984), crítico da indiferença do povo alemão perante a política nazi de extermínio. Este texto (uma das suas muitas versões) fala da indiferença dos que preferem fazer de conta que não sabem. A indiferença dos que lavam as mãos como Pilatos.

"Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse".

07
Jul24

A menina que queria tocar a lua

Luisa Brito

Meninas.jpg

A menina que queria tocar a lua. E ao lhe fazer ver que era impossível, que a lua estava muito longe, logo a resposta na ponta da língua “não faz mal, tu pões uma escada”. E, perante esta confiança absoluta, mais certezas tinha eu de que ser mãe é, de algum modo, ser escada entre os filhos e o infinito… E era ela que o declarava, e na pele, ”mãe, gosto de ti até ao céu e ao mundo inteiro.”

A menina que queria tocar a lua, de lágrima fácil, na tristeza e na alegria. Por vezes, quando a recolhia da escola, bastava eu perguntar “o que foi filha?” Todo o dia à espera que eu chegasse, “tive satisfaz!...” e rompia em soluços, verdadeiramente inconsolável. Ou quando lhe fizemos a surpresa com a gatinha Luna, que ela tanto desejava. Os olhos num piscar, de um rio para um mar de alegria. Houve uma única vez em que o pranto se avermelhou. E logo a minha mãe a soprar-me “levanta-te. lembra-te, és escada.”

A menina que queria tocar a lua cresceu. E entre missões e encenações, o destino da menina cruzou-se com o do rapaz. Numa estreia, cada um no seu papel. Ele de caracóis, ela de mulher fatal. Eu a cumprimentar o actor e o actor a elogiar a colega. E eu sem dizer nada... “Oh mãe, não inventes, somos só amigos.” E depois, no passeio às Ásias. E eu sem dizer nada... E ela já incomodada “Oh mãe, somos só amigos!” Mas um dia…., “Mãe, tenho uma coisa para te dizer. Mas tu já sabes….” E no rádio, os Quatro e Meia “ …/Mas por muito que eu o negue….”.

Vêm-me ao ouvido os acordes da canção “Lucky I'm in love with my best friend” e, também, estes versos de Adélia Prado:

"Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, que pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."

 

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