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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

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A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

07
Jul24

A menina que queria tocar a lua

Luisa Brito

Meninas.jpg

A menina que queria tocar a lua. E ao lhe fazer ver que era impossível, que a lua estava muito longe, logo a resposta na ponta da língua “não faz mal, tu pões uma escada”. E, perante esta confiança absoluta, mais certezas tinha eu de que ser mãe é, de algum modo, ser escada entre os filhos e o infinito… E era ela que o declarava, e na pele, ”mãe, gosto de ti até ao céu e ao mundo inteiro.”

A menina que queria tocar a lua, de lágrima fácil, na tristeza e na alegria. Por vezes, quando a recolhia da escola, bastava eu perguntar “o que foi filha?” Todo o dia à espera que eu chegasse, “tive satisfaz!...” e rompia em soluços, verdadeiramente inconsolável. Ou quando lhe fizemos a surpresa com a gatinha Luna, que ela tanto desejava. Os olhos num piscar, de um rio para um mar de alegria. Houve uma única vez em que o pranto se avermelhou. E logo a minha mãe a soprar-me “levanta-te. lembra-te, és escada.”

A menina que queria tocar a lua cresceu. E entre missões e encenações, o destino da menina cruzou-se com o do rapaz. Numa estreia, cada um no seu papel. Ele de caracóis, ela de mulher fatal. Eu a cumprimentar o actor e o actor a elogiar a colega. E eu sem dizer nada... “Oh mãe, não inventes, somos só amigos.” E depois, no passeio às Ásias. E eu sem dizer nada... E ela já incomodada “Oh mãe, somos só amigos!” Mas um dia…., “Mãe, tenho uma coisa para te dizer. Mas tu já sabes….” E no rádio, os Quatro e Meia “ …/Mas por muito que eu o negue….”.

Vêm-me ao ouvido os acordes da canção “Lucky I'm in love with my best friend” e, também, estes versos de Adélia Prado:

"Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, que pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
Ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva."

 

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