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Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

Hostel

A vida privada de cada um de nós compreende a sua intimidade, mas não se esgota nela. Afinal, como dizia a poetisa “Como se um grande amor cá nesta vida não fosse o mesmo amor de toda a gente!...”.

24
Nov18

Há sempre alguém que desiste...

Luisa Brito

DSC00454 b.jpg

 

Ninguém soprou o balão

 

Verão

E o ar escalda.

Verão

No meu corpo roupas leves,

como leve o pensamento.

Leve, leve como o vento,

vou subindo, vou subindo...

Bola de sabão brilhando ao sol de Verão.

Bola de sabão, também meu coração.

O sol que brilha, e eu que subo...

O sol que sobe e eu que brilho.

Subo... subo... vou voando...

No meu corpo, roupa é brisa,

no meu espírito vida é sopro.

Tao leve cá por dentro...

Como leve estou por fora.

Um sopro mais forte rebenta o balão...

Outro balão já se forma.

Verão e o ar abrasa

Verão...

Abrasa meu coração.

Leve, leve, vou subindo...

Bola de sabão, sopro leve de Verão.

....

(O Fernando diz: “O Inácio suicidou-se!”)

 

Bola de chumbo pesa. Pesado meu coração.

Bola de sabão por onde andas?

O teu olhar onde está?

De que te serve o amor?

Para que te serve amar?

Somos tanto, ou somos tantos?...

Poucos, muito, nada somos.

Bola de sabão, João?

Ninguém soprou o balão.

Ninguém parou a teu lado.

Nenhum olhar demorado.

Apenas um encolher de ombros:

“Morreu afogado o coitado.”

O João morreu. O mundo permaneceu.

E dentro de mim há raiva.

Raiva de sermos cada um de nós, um só.

Raiva por vivermos virados para nós.

Raiva de estarmos sós

Existindo lado a lado.

Digo “Ninguém parou a teu lado”

Mas a raiva é mais por mim.

Jesus, será mesmo assim?

É uma vida que acaba.

Um universo se extingue.

Um irmão nosso que morre.

Pior. Um irmão nosso que escolhe a morte

Como remédio final.

No mesmo dia em que o meu balão subia, subia...

Alguém como eu, olhando o mesmo sol que me aquecia, dizia

“Adeus. Acabou. Não prestou. Não trouxe nada e tudo me levou.”

Estrangeiro. Oscilava. Ía cair. Ninguém ajudou.

Caiu!

A raiva é toda por mim.

(de que me serve o amor?)

A raiva é do meu próprio choro.

Tivesse chorado antes,

Contigo e a teu lado.

Tivesse querido ajudar.

Estava muito ocupada

(todos nós muito ocupados)

Não há tempo p’ra parar.

O Outro?... Que se lixe o Outro...

Bola de chumbo pesa. Pesado meu coração.

Para que te serve o amor

Se não aprendeste a amar?

Bola de sabão, ridícula bola de sabão,

Não sobes não.

Pesado o teu coração.

O corpo gelado do teu irmão é uma acusação

que arrefeceu o teu Verão

E te esvaziou o balão.

Não é pena de ti que eu tenho, João

(tu entendes...)

É antes raiva e pena de mim.

Mas até a minha raiva é vã...

Sou aquilo que censuro.

Aquilo que digo é fumo,

Sinto-me culpada. Sou culpada.

Já não é Verão

Já não há balão.

Há menos um coração.

Somos tanto, ou somos tantos?

Poucos, muito, nada somos.

Bola de sabão, João?

Ninguém soprou o balão!

 

(Esta espécie de catarse marcou a minha entrada na adultícia.

Curiosamente, há algo em nós que permanece imune ao tempo...)

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